Vamos falar de maminhas?

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Vou falar de maminhas.

Tenho 14 primos, todos mais novos do que eu e sempre me lembro de ver as minhas tias de maminhas de fora a dar de mamar aos meus primos. Sempre achei bonito e natural,aquele era um cenário frequente na minha família. Mal sabia eu, na altura, que este podia ser assunto de tanta controvérsia! Dar ou não dar de mamar? Dar de mamar em público ou apenas em privado? Podia dissertar sobre estes assuntos, mas hoje vou falar-vos apenas  da minha experiência.

Como já disse tive contato com a amamentação desde que me lembro. Muito mais tarde, já na faculdade, aprendi a parte científica do assunto – sabia exaustivamente os benefícios:

Para o bebé – é o alimento mais completo que pode haver e está adaptado a cada um. O corpo da mãe produz o leite de acordo com as necessidades do bebé, tanto em termos de quantidade como em termos de constituição, é por isso um alimento muito bem tolerado e de fácil digestão em comparação com o leite adaptado (o que vem na lata). Protege a criança contra infeções, nomeadamente otites e infeções respiratórias, mesmo após se suspender a amamentação. Há também estudos que sugerem que previne o risco de obesidade, de doenças cardiovasculares e de doenças autoimunes em idades mais avançadas.

Para a mãe – previne hemorragias logo após o parto pela contração uterina que ocorre em resultado de uma hormona – oxitocina – que é produzida quando a mulher amamenta, ajuda a perder peso após o nascimento do bebé e previne o cancro da mama, útero e ovário.

Para a família – que poupa dinheiro em leites de lata e em idas ao médico.

Sabia as recomendações – os bebés devem ser alimentados de leite materno em exclusivo até aos 6 meses e em conjunto com outros alimentos até pelos menos aos 12 meses de idade, e as contraindicações, porque há efetivamente situações em que a amamentação é desaconselhada (quando a mãe é portadora de HIV por exemplo).

Portanto quando engravidei, ainda antes de começar a especialidade em pediatria mas já médica formada, tinha uma certeza: vou dar de mamar.

Assim passei 9 meses sem pensar muito nesse assunto. Li vários livros sobre puericultura, preparei todo o enxoval e esperei que a minha princesa nascesse.

Chegou Fevereiro e com ele a Margarida. Nasceu de cesariana e eu ainda estava no recobro quando ma trouxeram. Puseram-na à mama e ela pegou sem dificuldade e começou a mamar. “Olhe para isso” – diziam as enfermeiras “Cheia de colostro!”. “Quem?? Eu?? Cheia de colostro? Então mas isto é alguma coisa… só saem umas gotinhas. Ai que eu não tenho leite…” – Pensava eu. Decidi confiar nas enfermeiras e a verdade é que nos primeiros dias e noites, não fosse eu pôr o despertador de 3/3h para a minha bebé mamar, ela não se queixava de fome e adormecia reconfortada depois de ir à mama.

Ao 3º dia tive alta. Antes de sair do hospital a enfermeira veio ver-me “Ainda não teve a subida do leite” disse ela. “Não tive a subida do leite, já tenho as mamas o dobro do tamanho… não viu bem com certeza” – Pensava eu. Mas pensava mal. Cheguei a casa e ao peito tinha o que pareciam 2 pedras de tão cheias que estavam as mamas, o leite pingava dos mamilos mal a minha bebé dava sinal e eu não aguentava a sensação de que as maminhas iam rebentar a qualquer instante. Fiz o que tinha lido nos tais livros de puericultura: fui para o banho massajar  e aliviar a tensão das duas mamas-pedregulho. Pelo menos nessa altura tive a certeza de que tinha leite de sobra. Foi sol de pouca dura. Ao fim de uma semana e com as hormonas ainda totalmente desorientadas (sim, porque depois de sermos mãe andamos algum tempo a bater mal e com as emoções em descontrolo total), a Margarida em vez de aguentar 3h passou a querer mamar de hora a hora! Como assim, de hora a hora? A minha criança que mamava de 3/3h porque eu punha despertador, que até me dava uma 1h extra de intervalo durante a noite, que adormecia que nem uma pedra mal ficava saciada, agora queria mamar de UMA em UMA hora?? Eu chorava (repito – as hormonas não ajudavam!) “Eu não tenho leite… o meu leite não é bom.. ela fica com fome…. Eu não vou conseguir dar de mamar até aos 6 meses… mas eu não lhe quero dar biberon”. Eu chorava e desesperava. O Luís ouvia e desesperava.

Eu sabia a teoria quase toda: que NÃO há leites maus nem fracos, que se os bebés fazem xixi e cocó com regularidade é porque estão bem alimentados, que o corpo da mãe se prepara para responder às necessidades do bebé. Eu sabia a teoria quase toda mas ali estava eu, na prática, com uma bebé recém nascida a chorar com fome. Desesperada voltei aos meus livros de puericultura (que há coisas que não vêm nos manuais de Medicina) e encontrei a resposta no “Socorro… sou mãe” da Rita Ferro Alvim. A minha criatura estava com um pico de crescimento!!!

Assim, com a alma apaziguada, continuei a dar de mamar, fosse de hora a hora ou a outro intervalo que a Margarida quisesse, e sem grandes dificuldades ela mamou em exclusivo até aos 5 meses (como a maioria das mães tive que antecipar a introdução de outros alimentos para poder retomar ao trabalho). A maminha acabou aos 10 meses, quando tive uma mastite e quando o leite que tinha já era pouco.

Passados 2 anos e meio nasceu o Duarte. Eu, já com muito mais conhecimento (tanto teórico – já era interna de pediatria – como prático – afinal já tinha tido uma 1ª experiência com a Margarida) achei que não havia hipótese de falha! Só que o meu filho trocou-me as voltas. O meu bebé chorava SEMPRE de hora a hora, o meu bebé só estava bem ao meu colo e à mama, a fazer de chucha. Aguentei 1 mês em aleitamento materno exclusivo, cheia de dúvidas. Ao fim de 1 mês, exausta (continuava a chorar de hora a hora) decidi dar-lhe um biberon. Ao fim de 1 hora ele estava a chorar outra vez. Dei-lhe outro biberon. Ao fim de 1 hora a chorar de novo. Conclusão: não era fome, o meu bebé era só refilão. A experiência do biberon ditou o fim da maminha: o Duarte provou e gostou e começou a não querer ir ao peito. Os bebés na maminha têm que se esforçar muito mais que no biberon e ele queria encher a barriga em pouco tempo e sem grande esforço. A pouco e pouco ele foi deixando de pegar na mama. Comecei a tirar do meu leite com a bomba e dava-lhe pelo biberon. Com grande esforço ainda consegui manter o meu leite alguns meses, mas apesar de eu tirar o leite com a bomba fui produzindo cada vez menos. Sem dramas, sem culpas, e muito naturalmente aos 6 meses veio o leite de lata de vez.

Dar de mamar pode ser maravilhoso! Sentimos o nosso bebé juntinho a nós, o olhar a fixar o nosso, a sensação de que o resto do mundo não existe e só importamos nós os dois. É do que tenho mais saudades de quando os meus filhos eram pequeninos.

Mas dar de mamar pode ser difícil e doloroso. Eu passei por isso.

Dói quando após o parto o útero se contrai com a oxitocina que é libertada quando damos de mamar, doem as mamas no início da mamada quando os ductos se enchem de leite, dói quando o bebé faz da mama chucha e faz gretas que chegam a sangrar, dói quando a mama infeta e surge uma mastite.

E dói “na alma” quando duvidamos do nosso leite, quando não sabemos se o bebé chora porque tem fome ou se é por outro motivo qualquer, quando a mãe e a sogra e a tia dizem que temos pouco leite ou que o leite é fraco e nós nos sentimos a falhar como mãe.

 

SF

(médica de crianças)

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