Mind_of_one , one of us… A nossa experiência na Intercultura AFS Portugal

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A Mind chegou a Portugal tímida, insegura e nervosa. Uma viagem que deixava a sua casa a quilómetros de distância, longe da sua família, amigos e muito fora da sua zona de conforto. No dia em que chegou recebêmo-la com beijinhos e abraços para que sentisse o calor da família. A Mind é tailandesa , muçulmana e adolescente.

Esteve durante um ano a viver connosco, a estudar e experimentar o nosso conceito de família.Teve de enfrentar desafios como estar num país diferente , uma cultura desconhecida, uma língua difícil de aprender, uma religião diferente da sua, mas acima de tudo o seu maior desafio foi chegar ao coração da Clara.

A Clara não é miúda de se dar facilmente e sobre a Mind tinha muito a estranhar. Estranhou a cara redonda, a cor da pele, a forma de ser calada e tantos outros jeitos nela. Para mim enquanto mãe , receber a Mind foi igualmente um desafio gigante. Estou habituada a lidar com crianças, não tenho adolescentes em casa e por isso estranhava nela hábitos característicos da idade como dormir até tarde ou chegar e encavernar-se no quarto. Tive de estabelecer regras para os abusos típicos da idade, insistir em atos simples como fazer a cama ou arrumar a roupa. A Mind pode ser de um país e cultura diferentes, mas a adolescência é universal.

Em casa estabeleceu-se a hierarquia cliché, de mim recebia o autoritarismo maternal, o pai era o fixe e que tentava amenizar as falhas e os choques culturais com a descontração que lhe é característica. Com as miúdas estabeleceu uma relação bonita, a Leonor recebeu-a logo e tentou de imediato transferir para ela a responsabilidade da irmã mais velha, mas foi com a Clara que o “caldo entornou”. Não foi fácil para a Mind “ganhar ” a Clara, no entanto ela foi quem mais sentiu a falta dela no dia da sua  partida. Já quase a terminar o ano, aqui em Portugal, fizemos uma viagem de família por Espanha para que lhe déssemos oportunidade de conhecer um pouco mais da Europa, e as duas já não se largavam. A Mind já faz parte da família , é a irmã mais velha que vive longe e queremos todos voltar a ver.

Quando nos inscrevemos no programa da AFS Portugal , não pensámos que teríamos tanto a aprender e o tanto que com ela viríamos a crescer. Preocupou-me principalmente a religião porque achei que poderia ser o maior entrave à integração familiar, mas decidimos não comer carne de porco durante o ano, em respeito pela religião dela, e ao mesmo tempo a Mind compreendia e festejava connosco as nossas festas tradicionais como o Natal ou a Páscoa.

A Mind manifestava uma imensa dificuldade em tomar decisões , mesmo nas coisas mais simples, como beber água ou sumo ao jantar , bebia basicamente o que lhe punhamos no copo, e se lhe dávamos opção de escolha ficava atrapalhada. Percebemos que esta submissão faz parte de si e da sua cultura,  condição de menina, mulher, pouco habituada a escolhas. Na escola era boa aluna e fazia um esforço abismal para acompanhar as aulas em português, fez amigos portugueses e enquadrou-se bem na turma. A cultura tailandesa é uma cultura pouco dada a afectos , no entanto nunca foi por querer desrespeitosa, foi por vezes irresponsável mas também porque lhe calhou na sorte a mãe portuguesa mais chata com as horas e promessas! Estabeleceu uma relação especial com a cadela da família e abraçou com entusiasmo a tarefa de tratar da Kika.Ter a Mind em casa foi muito mais receber que dar,  demos-lhe durante um ano, comida, casa e acolhimento , mas recebemos um curso intensivo sobre a cultura tailandesa, sobre  a minoria muçulmana que lá reside, sobre a sua condição de mulher. As minhas filhas aprenderam a língua, comeram comida tailandesa que a Mind cozinhou , a Clara em particular cresceu e tornou-se muito mais aberta ao mundo. Tenho a certeza que nunca esquecerão esta irmã mais velha. Não vou dizer que foi super fácil porque não foi. Um ano é muito tempo e nas alturas em “que o caldo entorna” , é preciso ser firme em relação à decisão que tomámos de receber em casa alguém que mesmo não sendo nosso está ali experimentar a impressão de “ser nosso”, o que torna o desafio muito mais difícil. A responsabilidade de educarmos provisóriamente alguém é por vezes asfixiante. Pensava muitas vezes como seria se fossem as minhas filhas, para evitar ser demasiado permissiva ou demasiado intransigente, o que nem sempre é “peanuts”.

Tivemos de lidar com o preconceito alheio, quando saíamos os cinco muitas vezes a Mind era vista como a empregada da família e o meu marido quando saía com ela , tinha muitas vezes de se impôr contra a mentalidade mesquinha, ou do taxista que lhe oferecia boleia para o hotel, ou do homem que lhe dava uns “bitaites” sobre massagens tailandesas. Não é fácil combater o preconceito mas acredito que é assim, obrigando-nos a conviver com culturas diferentes da nossa, a conhecer realidades distintas que educamos mentalidades, que vencemos o racismo, o chauvinismo ou guerras ideológicas. Quebrar preconceitos, aceitar as diferenças, perceber culturas e modos de vida, abrir as portas do mundo para criarmos melhores pessoas e desmistificar o  preconceito é possível. É  só preciso criar laços e conhecer diferenças para aproximar corações e vencer barreiras.

O programa da AFS Portugal recebe anualmente adolescentes de todas as partes do Mundo, por 3, 6 ou 9 meses, aproxima religiões e culturas , dando a conhecer a nossa cultura ao Mundo, ao mesmo tempo que nos permite conhecer outras.

 

Sofia Franco

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