Uma vida é pouco para amar

sofia family | is-18Queria tê-las sempre assim, debaixo da minha asa e onde a vista alcança. Queria que o meu colo nunca ficasse pequeno demais para elas. Que a mais velha não tivesse já ares de pré adolescente, que a do meio não fosse já para o primeiro ano e a mais nova, (que vai fazer tudo primeiro com pressa de apanhar as irmãs) ,não  corresse tanto e se demorasse no meu peito. Queria estar sempre com elas, não perder nada do que as faz sorrir, nem chorar. Estar lá sempre que fizesse falta,e estar lá também quando elas acharem que não faço falta nenhuma.

Queria segurar o mundo nas minhas mãos, examiná-lo bem com lentes de aumentar, tirar-lhe os perigos e devolvê-lo já seguro.

Queria tanto não perder nenhum sorriso, nenhuma história ao deitar, aquela música que as faz pular e o miúdo que as faz suspirar.

Principalmente queria que o tempo não passasse tão depressa, que os dias tivessem mais horas e as horas mais minutos.  Que um segundo não fosse um instante e que num instante não fossem já mulheres .  Mas o tempo não liga ao que peço, vai passando e apagando a memória do choro agudo, da cara suja de papa, da primeira palavra e o primeiro passo, do dia em que se sentaram  e daquele em que falaram. O tempo vai levar as memórias de um rosto pequenino, que ao vê-las mulheres nunca mais me vou lembrar. E num instante quando acordar tenho rugas na cara, casa vazia e saudade no olhar. E num instante , nesse mesmo instante , vou desejar ter trabalhado menos e passeado mais, ter gritado menos e conversado mais, ter chorado menos e gargalhado mais. Vou desejar ter dado mais beijos, abraços, colo e mimos. Mais ainda mais. Muito mais.

Se ao menos o tempo pudesse avisar que uma vida é pouco para amar.

 

Sofia Franco

(sem filtros)

 

 

 

 

 

 

Dia Internacional do Surdo

Mano, sabes que domingo é dia do surdo?

Boa! Vão fazer-me uma festa?!!?!?

Parvo…

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É muito assim, sempre foi assim a forma como encararmos o facto de ter um surdo lá em casa.

Soube que o meu irmão era surdo tinha eu uns 9 ou 10 anos. Foi o meu pai que me contou enquanto lavava as mãos na casa de banho. Assim, simples e directo “sabes que descobrimos que o teu irmão é surdo?” Acho que respondi: Pois!

Na verdade na altura nem percebi o que isso implicaria. Com o tempo e o desenrolar das coisas fui-me apercebendo e habituando. Ainda tive apoio psicológico, umas duas sessões com uma psicóloga que nem sequer era muito simpática, mas depois deixei-me disso. Acho que me fez muito melhor usar esse tempo para brincar na rua ás escondidas e à apanhada.

Senti pouco as diferenças, tirando as luzes que acendem lá em casa cada vez que alguém toca à porta ou o facto de não valer a pena telefonar para o meu irmão, acho que a minha realidade é igual à realidade de qualquer irmã mais velha… passar para segundo plano em algumas situações, ter que dividir tudo, ter que ver alguém estragar os meus brinquedos, sentir a responsabilidade de ter que dar o exemplo e pouco mais.

Para ele sim, é mais duro. Não vale a pena pensarmos numa sociedade perfeita. Ser diferente será sempre uma luta. Ser surdo é por isso uma luta diária. Não consigo imaginar o que vai na cabeça dele quando sai à rua, não sei se existe caos ou apenas silêncio, mas calculo que ele gostasse de nos ouvir, de conseguir falar com qualquer pessoa na rua, de ir às finanças, à segurança social ou a qualquer outra instituição publica sem depender de terceiros. Calculo que ele tal como eu quisesse ser independente, mas tenho duvidas que isso seja possível. Não gosto de coitadinhos e o meu irmão não é um coitadinho, nunca foi e nunca será. É bonito, lindo mesmo, tipo jogador da bola, manequim e modelo fotográfico (mas tudo ao mesmo tempo), inteligente, lutador e um excelente atleta. É chato, na mesma proporção da beleza e muito desconfiado, quer saber sempre o que estamos a dizer, o que a mesa ao lado está a dizer, o que os senhores lá ao fundo estão a conversar e não acredita quando lhe digo que não sei, que não consigo perceber as conversas colaterais. Esta posso afirmar que é uma característica dos surdos, são desconfiados.

Depois há uma coisa que é muito gira, quase ninguém sabe Língua Gestual, portanto, nós gozamos o prato e podemos contar segredos um ao outro numa sala cheia de gente. Também discutimos, as mãos gesticulam mais depressa, e a expressão facial muda. Invento quase todos os dias um novo gesto para me conseguir exprimir e dizer palavras que não sei, ele goza, ri até 2023, depois volta e corrige-me. Já não moro com ele, mas garanto que “falamos” todos os dias (obrigada tecnologia).

Somos o gato e o rato, mas não vivemos um sem o outro. E como todos os cúmplices nem sempre precisamos de verbalizar…basta um olhar.

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Sim, eu digo surdo, não digo deficiente auditivo. Também digo burro, não digo que tem perda de inteligência. Digo cego em vez de invisual , digo velho não digo idoso e digo preto não digo de cor. Sou assim… SEM FILTROS.

Se tiverem interesse em ler coisas mais sérias sobre o assunto. Ficam alguns links:

http://parstoday.com/pt/radio/world-i23135-dia_internacional_do_surdo

http://www.apsurdos.org.pt/

https://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-11-16-Para-la-de-um-mundo-surdo#gs.Gr3cQ1o

MB

Sem  filtros

 

 

 

 

 

A Solidão da 3ª Gravidez

Estou grávida. Estou grávida do terceiro filho. Quando temos o primeiro a alegria é contagiante mesmo que não tenha sido planeado, mesmo que  ainda tivesses planos para concretizar ou que não te sintas preparada,. Quando acontece ficas como que anestesiada , não sabes o que vai acontecer, não sabes como é , só sabes o que toda a gente à tua volta te diz, que é maravilhoso, que é lindo. Algumas pessoas assumem que não é fácil, mas todas elas concordam que é o melhor da vida. Quando ficas grávida pela primeira vez vives tudo intensamente, sentes-te acompanhada e nunca estás sozinha.

O segundo filho é sempre uma escolha tua, pode ser logo de seguida, podes esperar uns anos  mas é aquilo que  toda a gente espera de ti. O segundo filho. Acontece e novamente a onda de calor, de amizade de alegria gira à tua volta. É claro que tens medo, é normal. O teu primeiro ainda é pequeno , ainda precisa de atenção. Vais para a maternidade e deixas as gavetas etiquetadas e a roupa separada para um mês. Vais para a maternidade ter o segundo mas não consegues deixar de pensar no primeiro.

Aquilo por que não esperavas é que a intensidade de amor que tens pelo teu primeiro se multiplique pelo teu segundo. Não conhecias em ti a capacidade de amar tanto.  E não conhecias em ti a capacidade de aceitar o amor sem fronteiras, sem limites, sem prerrogativas que todos os dias recebes das pequenas criaturas de quem cuidas.

Voltas á rotina. Ao trabalho, foco na carreira agora , aquela que deixaste em suspenso, tentas  ser o que eras mas nunca mais serás a mesma. Porque inevitavelmente as tuas prioridades mudaram. E aceitas. Aceitas que não consegues ser excelente, que talvez a tua evolução profissional seja mais lenta do que desejavas. Mas não sentes rancor. Tens a família que sempre imaginaste.

Um dia chegas a casa e percebes que alguma coisa está errada e como que intuitivamente fazes um teste de gravidez. Positivo. Estás grávida outra vez. O choque é demasiado e choras, choras porque não planeaste, choras porque não querias, choras porque não queres deixar a tua vida perfeita para enfrentar mais desafios. Choras não sabes por quê. Pensas o que vais fazer e as opções que tens mas muito antes de tomar uma decisão o universo toma por ti, e assim de um dia para o outro, sem mais nem porquês o que encaraste como um problema deixa de existir. E assim , de um dia para o outro o que encaravas como um problema era tudo o que querias na vida.

E a partir desse dia passas a viver com essa ideia no coração e tu sabes que as ideias que se cravam no coração são sempre as que mais dificuldade tens em esquecer.

Mas falta-te a coragem, falta-te o apoio. Ninguém fala sobre isso , ninguém imagina que o queiras, ninguém sabe do teu coração. Só tu.

Até que um dia voltas a sentir que há algo que não está bem, fazes o teste, e outro e dali a uma semana mais um… só para garantir. Dás a noticia ao teu marido num tom seco, confuso, não esperas foguetes, não esperas música, marcas consulta no médico e vais, sozinha. E é  a partir desse momento que a tua terceira gravidez te torna solitária. Solitária nas tuas escolhas, solitária nos teus pensamentos, nas tuas culpas, nos teus anseios.

TESTE GRAVIDEZ

Consideras todas as opções, fazes tantas contas à vida, à segunda casa que vais ter de vender, às escolas privadas que não vais conseguir pagar. Mas o amor não tem preço e não há suborno possível para a vontade do teu coração. E decides. Não sabes se bem ou se mal. Mas decides.

E suportas os enjoos, a má disposição, as quebras de tensão. Sozinha. E quando chega a hora começas a dar a notícia. Quase ninguém te dá os parabéns, quase ninguém te felicita. Mas não faz mal, ninguém sabe quando são as tuas consultas, não querem pormenores, afinal , já é a terceira. Devem pensar que foi um deslize ou que estás doida. E nessa solidão caminhas grávida e orgulhosa. Só tu sabes.

“Do you Tinder me? O novo engate de verão?

tinder 2No meu tempo ( e felizmente  já posso começar a frase desta forma), sabíamos que sair à noite, ir a um bar ou a uma discoteca  nos valia um bilhete para um flirt ou “engate”. Mas era um  flirt esforçado, olhávamos para o  tipo mais giro e se tivéssemos a sorte dos nossos olhares se cruzarem  provávelmente dali a 10 minutos tínhamos uma bebida grátis , um sorriso e só depois disso um aceno com a cabeça como quem diz” obrigada”. Daí a menos de nada um pouco de conversa, uma troca de números de telemóvel e um telefonema (ou não) no dia seguinte.

 

Hoje em dia parece-me que que o flirt está em risco, essa figura que nos alimentava o ego e nos pagava as bebidas tornou-se obsoleta.

Falava com o Miguel e perguntava-lhe: -Mas porque raio usas tu o Tinder? , És um homem giro e interessante, não achas que qualquer miúda ia gostar de ti?

-Com o Tinder não perco tempo, escolho uma miúda, faço um like e se ela também fizer marcamos um encontro.- Disse-me o Miguel.

Fiquei plenamente convencida que o Tinder é apenas e nada mais  que sexo, fácil e barato, sem  trabalho, sem rejeição. Escolhemos alguém como num catálogo, de preferência perto de nós, e dali a pouco estamos a marcar um encontro com alguém que só conhecemos pelo like  no seu perfil.

O Miguel apresentou-me a Ana , tinha-a conhecido através do Tinder também, encontraram-se algumas vezes,mas nada mais do que sexo, Ana é casada.

A Ana disse-me que usava esta aplicação porque sempre tinha sido tímida e na verdade não tinha muita paciência para as investidas masculinas que lhe soavam sempre a falso, disse-me que assim era o que era. A Ana tem uma vida profissional muito ocupada e por vezes viaja, é quando utiliza mais a app. À noite, quando se sente mais sozinha, escolhe alguém por perto com quem se possa encontrar no seu quarto de hotel, já se encontrou com homens mais novos, mais velhos , solteiros e casados. Há de tudo, diz-me ela. Há muitos homens casados e muitas mulheres também. Já não acredito que as pessoas sejam fíeis , os casamentos estão condenados a estas traições sem sentido  mas que de uma forma ou outra parecem apimentar as relações. Diz-me sem pudor que já teve “quecas ” melhores que outras. Perguntei-lhe pelo Miguel, o que teria acontecido se tivessem continuado a encontrar-se. Respondeu que existe quase um código de honra entre os utilizadores, que nunca se encontram mais que três vezes, não sabe porquê, mas é assim. Três vezes e cada um vai à sua vida. Prontos para o próximo perfil.

Nem todas as histórias são felizes, existem muitos curiosos que têm a aplicação só por curiosidade, ou então esperam por um dia em que tenham coragem para o tal “like” que lhes alivie a alma. Para muitos outros é já um vício, uma forma de passar o tempo. Desvirtua-se o interesse puro , mesmo que com segundas intenções, para dar lugar apenas e só à concretização.

E é assim que o Tinder veio revolucionar a vida sexual dos portugueses e a verdade é que serve para todos, encontramos pessoas mais ou menos conhecidas, turistas em viagem, casados e casadas, solteiros e solteiras. Uma pergunta, uma resposta e tudo acontece em pouco tempo. Um adeus até à próxima e o tinder já surtiu o seu efeito. Já serviu para colmatar a solidão de alguém, para alimentar falsas expectativas, para dar uma breve impressão de interesse, para corresponder a uma qualquer necessidade ou vício. Psicólogos para quê quando temos o tinder?

Quanto a mim, continuo a preferir o “flirt” sem app. Aquele que nos acontece quando menos esperamos, na fila do supermercado de cabelo apanhado num rabo de cavalo manhoso, ou aquele que já estamos à espera que aconteça, cheirosas e arranjadas, quando saímos à noite e dançamos daquela maneira sexy, certas que estamos a impressionar o deus grego que está a olhar para nós. Aquele flirt que acontece inocentemente quase sem nos darmos conta ou aquele totalmente planeado. Esse mesmo, esse que nos dá luta, nos causa um friozinho na barriga e borboletas no estômago. Esse que nos faz viver. Não sou mulher de Apps. Definitivamente prefiro homens a sério , que não se escondem atrás de um perfil.

Don´t you tinder me ….

 

Sofia Franco

(sem filtro)