Mind_of_one , one of us… A nossa experiência na Intercultura AFS Portugal

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A Mind chegou a Portugal tímida, insegura e nervosa. Uma viagem que deixava a sua casa a quilómetros de distância, longe da sua família, amigos e muito fora da sua zona de conforto. No dia em que chegou recebêmo-la com beijinhos e abraços para que sentisse o calor da família. A Mind é tailandesa , muçulmana e adolescente.

Esteve durante um ano a viver connosco, a estudar e experimentar o nosso conceito de família.Teve de enfrentar desafios como estar num país diferente , uma cultura desconhecida, uma língua difícil de aprender, uma religião diferente da sua, mas acima de tudo o seu maior desafio foi chegar ao coração da Clara.

A Clara não é miúda de se dar facilmente e sobre a Mind tinha muito a estranhar. Estranhou a cara redonda, a cor da pele, a forma de ser calada e tantos outros jeitos nela. Para mim enquanto mãe , receber a Mind foi igualmente um desafio gigante. Estou habituada a lidar com crianças, não tenho adolescentes em casa e por isso estranhava nela hábitos característicos da idade como dormir até tarde ou chegar e encavernar-se no quarto. Tive de estabelecer regras para os abusos típicos da idade, insistir em atos simples como fazer a cama ou arrumar a roupa. A Mind pode ser de um país e cultura diferentes, mas a adolescência é universal.

Em casa estabeleceu-se a hierarquia cliché, de mim recebia o autoritarismo maternal, o pai era o fixe e que tentava amenizar as falhas e os choques culturais com a descontração que lhe é característica. Com as miúdas estabeleceu uma relação bonita, a Leonor recebeu-a logo e tentou de imediato transferir para ela a responsabilidade da irmã mais velha, mas foi com a Clara que o “caldo entornou”. Não foi fácil para a Mind “ganhar ” a Clara, no entanto ela foi quem mais sentiu a falta dela no dia da sua  partida. Já quase a terminar o ano, aqui em Portugal, fizemos uma viagem de família por Espanha para que lhe déssemos oportunidade de conhecer um pouco mais da Europa, e as duas já não se largavam. A Mind já faz parte da família , é a irmã mais velha que vive longe e queremos todos voltar a ver.

Quando nos inscrevemos no programa da AFS Portugal , não pensámos que teríamos tanto a aprender e o tanto que com ela viríamos a crescer. Preocupou-me principalmente a religião porque achei que poderia ser o maior entrave à integração familiar, mas decidimos não comer carne de porco durante o ano, em respeito pela religião dela, e ao mesmo tempo a Mind compreendia e festejava connosco as nossas festas tradicionais como o Natal ou a Páscoa.

A Mind manifestava uma imensa dificuldade em tomar decisões , mesmo nas coisas mais simples, como beber água ou sumo ao jantar , bebia basicamente o que lhe punhamos no copo, e se lhe dávamos opção de escolha ficava atrapalhada. Percebemos que esta submissão faz parte de si e da sua cultura,  condição de menina, mulher, pouco habituada a escolhas. Na escola era boa aluna e fazia um esforço abismal para acompanhar as aulas em português, fez amigos portugueses e enquadrou-se bem na turma. A cultura tailandesa é uma cultura pouco dada a afectos , no entanto nunca foi por querer desrespeitosa, foi por vezes irresponsável mas também porque lhe calhou na sorte a mãe portuguesa mais chata com as horas e promessas! Estabeleceu uma relação especial com a cadela da família e abraçou com entusiasmo a tarefa de tratar da Kika.Ter a Mind em casa foi muito mais receber que dar,  demos-lhe durante um ano, comida, casa e acolhimento , mas recebemos um curso intensivo sobre a cultura tailandesa, sobre  a minoria muçulmana que lá reside, sobre a sua condição de mulher. As minhas filhas aprenderam a língua, comeram comida tailandesa que a Mind cozinhou , a Clara em particular cresceu e tornou-se muito mais aberta ao mundo. Tenho a certeza que nunca esquecerão esta irmã mais velha. Não vou dizer que foi super fácil porque não foi. Um ano é muito tempo e nas alturas em “que o caldo entorna” , é preciso ser firme em relação à decisão que tomámos de receber em casa alguém que mesmo não sendo nosso está ali experimentar a impressão de “ser nosso”, o que torna o desafio muito mais difícil. A responsabilidade de educarmos provisóriamente alguém é por vezes asfixiante. Pensava muitas vezes como seria se fossem as minhas filhas, para evitar ser demasiado permissiva ou demasiado intransigente, o que nem sempre é “peanuts”.

Tivemos de lidar com o preconceito alheio, quando saíamos os cinco muitas vezes a Mind era vista como a empregada da família e o meu marido quando saía com ela , tinha muitas vezes de se impôr contra a mentalidade mesquinha, ou do taxista que lhe oferecia boleia para o hotel, ou do homem que lhe dava uns “bitaites” sobre massagens tailandesas. Não é fácil combater o preconceito mas acredito que é assim, obrigando-nos a conviver com culturas diferentes da nossa, a conhecer realidades distintas que educamos mentalidades, que vencemos o racismo, o chauvinismo ou guerras ideológicas. Quebrar preconceitos, aceitar as diferenças, perceber culturas e modos de vida, abrir as portas do mundo para criarmos melhores pessoas e desmistificar o  preconceito é possível. É  só preciso criar laços e conhecer diferenças para aproximar corações e vencer barreiras.

O programa da AFS Portugal recebe anualmente adolescentes de todas as partes do Mundo, por 3, 6 ou 9 meses, aproxima religiões e culturas , dando a conhecer a nossa cultura ao Mundo, ao mesmo tempo que nos permite conhecer outras.

 

Sofia Franco

Até já querida Bá

Querida  Bá (variante de Bábá ou Barbarella), daqui a pouco passo aí para te dar um beijinho, o último nesta vida, e antes que a as mãos me tremam e as lágrimas me turvem a visão quero dizer-te isto:

Desculpa não ter estado mais presente. Deixei que a vida se metesse no nosso caminho deixando para trás as miúdas que comiam torrão de Alicante a qualquer hora , que estavam juntas em qualquer lugar, para passarmos a ver-nos em aniversários, festas, casamentos e batizados. E o nosso jantar de Natal. Devia ter-te ligado mais vezes. Havia em nós o conforto de sabermos que estávamos perto, que os nossos filhos cresciam habituados a nós , mas querida Bá, roubaram-nos o tempo, impediram-nos de continuar a crescer e deixaram-nos sem a bússola que nos indica o Norte.

Achei que estava imune à dor, sei o que é  perda , o processo e as fases do luto. Achei-me maior que a morte só para agora me encontrar no chão, despida e rendida. Não sei nada. Não sou nada.

E mais logo, quando passar por aí , vou estar como todos os nossos amigos, amputada, incrédula e incapaz , mas serei por ti a fortaleza que o amor da tua vida precisar. Vou de muletas mas ergo-me por eles, os teus tesouros, que saberão sempre o que é o amor, que te levarão para sempre nos seus corações maiores que o Mundo.

Não me conformo com a crueldade humana, com a forma vil e impiedosa  com que te levaram o sorriso, esse que nos contagiava e desarmava. Irei sempre lembrar-me de ti , com um olhar cheio de ternura, com as palavras sempre doces, com a tua alegria natural.

Estarás sempre aqui connosco e perdoa-me a escassez de palavras porque nem todas as palavras do mundo conseguirão algum dia descrever o que me custa neste momento respirar. Vou dar um beijinho à tua mãe, ao teu marido e aos teus filhos.

Dá um beijo ao teu pai e já agora se conseguires diz ao meu pai que gosto muito dele.

Até já querida Bá.

 

 

Sofia Franco

Os Dias Da Mulher

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Ela acordou cedo, tinha sono mas as três filhas por despachar já esperavam por ela. Pediu às mais velhas para se vestirem , já tinha preparado a roupa no dia anterior.  Vestiu a bebé e foi preparar o pequeno almoço, pão e leite com chocolate , deu uma bolacha à mais nova para não chorar enquanto comiam. Preparou as três lancheiras para a escola: tirou do congelador uma sopa ( que faz aos domingos para a semana toda) , pegou em duas peças de fruta para triturar, lembra-se que ainda  tem de lavar o biberão da noite para mandar com o leite e juntar uma dose de papa. Mais os lanches das mais velhas que tenta que sejam saudáveis, o pão de leite, o leite com chocolate, os morangos que lavou e cortou.

Já estava quase em cima da hora, as miúdas foram lavar os dentes, levou a bebé para cima e colocou-a no ovinho enquanto toma um duche rápido. Saiu do duche e vestiu-se. olhou para o relógio e apressou-se a chamar as miúdas, só mais um brinquedo, agora a mais velha que se esqueceu do gancho no cabelo, mais um cócó da bebé que tem de trocar , as lancheiras, as mochilas, os casacos. Quer secar o cabelo, quer colocar uma maquilhagem para se sentir mais bonita, quer pôr os brincos e o fio que nunca usou. Quer escolher a roupa com mais cuidado. Quer sentir-se mais feminina, mais mulher. Apanhou o cabelo e saiu carregada para a rua. Tem de voltar atrás porque a mais velha caiu e esfolou um dedo, grita e chora , vai acabar o mundo se não lhe puser um penso. Volta atrás, afasta o cão que quer sair para a rua. Volta a sair de casa, a gata está na rua, mas que raio, mete-a dentro de casa. Os livros, não se pode esquecer dos livros que tem de levar para a escola , a professora pediu por ser o dia da mulher. Leva os livros que falam de mulheres fantásticas que mudaram o mundo. Hoje teve sorte e não apanhou trânsito, chegou a horas à escola das mais velhas, deixou a cama por fazer, a mesa por levantar, a bancada da cozinha ficou desarrumada. Reza para que a cadela não coma a manteiga outra vez ou não ataque o saco do lixo que se esqueceu de trazer. Ela é uma mulher moderna, independente, dá conta de três crianças, trabalha e trata da casa sozinha e está grata por isso. Deixou a mais velha na sala, trocou ideias com a professora, deixou a do meio no pátio a brincar, perguntou à educadora se estava tudo bem, carrega o peso do ovinho até ao carro novamente, a bebé dorme, mas até é melhor assim. Arranca com o carro e vai deixá-la à creche, dá os recados e finalmente respira. Percebe que se esqueceu de deixar a comida a descongelar para o jantar. Fica preocupada mas avança para o trabalho. Chega e prepara a secretária para mais um dia. Faltam dez minutos para a hora. Na hora de almoço aproveita para tratar alguns pendentes, come em cinco minutos. Volta para o trabalho . Sai à hora certa, percebe os olhares dos colegas por não ficar mais tempo, percebe os comentários do chefe, as indirectas que vai ouvindo pelo caminho. Acham que não se dedica o suficiente, não tem “estofo ” para a profissão. Vê os colegas serem promovidos enquanto ela fica pelo caminho, mesmo assim cumpre objetivos e supera expectativas. Prefere não pensar no assunto. Apressa-se para ir buscar as miúdas à escola, dá de mamar à mais nova, leva as mais velhas à música. Vai para casa já tarde, faz a cama que ficou por fazer de manhã, prepara os banhos , mete uns douradinhos no forno e sente-se culpada por lhes dar comida de porcaria. Seca-lhes o cabelo, veste-lhes o pijama, tira a mesa do pequeno almoço, põe a mesa do jantar, limpa a bancada, arruma a loiça da máquina, aspira a sala e a cozinha, quer aspirar o resto mas deixa para amanhã. Leva o cão à rua, chama as miúdas para o jantar.Esperam pelo pai que ficou a trabalhar até mais tarde. Nunca sai a horas. Acaba o jantar e tira a loiça da mesa, deixa a toalha para o pequeno almoço de amanhã. Dá a papa à mais nova e vai adormecê-la enquanto o  marido adormece as mais velhas. Adormeceu com elas, devia estar cansado de trabalhar tantas horas. Vai para o sofá, fica sozinha a ver um pouco de televisão. Descansa mulher. Amanhã começa tudo outravez.

Gosta do silêncio que se faz na casa antes de adormecer. Fecha os olhos até acordar sobressaltada com o barulho do despertador. Já é manhã.

Expliquei às minhas filhas na viagem para a escola o significado do Dia da Mulher, a importância de lutarmos pelos nossos direitos. Perguntaram-me porque não havia um dia do homem , tive de lhes explicar que existe o dia da mulher para nos relembrar enquanto sociedade que a mulher tem os mesmos direitos que os homens , contei-lhes que em alguns países do mundo as mulheres ainda não podem fazer ou ser o mesmo que os homens. Dou-lhes a explicação correcta do Dia da Mulher, ao mesmo tempo que rezo para que não passe na rádio mais um relato de uma mulher assassinada pelo marido, namorado ou amante . Um dia elas também vão escolher alguém com quem por amor vão querer partilhar uma vida, uma casa, uma família. Espero que  tenham o discernimento e a voz para se fazerem valer pelos seus direitos, o direito de partilharem não só uma cama mas também as tarefas, de dividirem não só uma casa mas também os deveres. Que o amor que tenham pela outra pessoa nunca seja superior ao amor que devem ter por si mesmas, que nunca confundam paixão com ciúme e que nunca mas nunca acreditem que se bate por amor, que se subjuga por amor, que se humilha por amor, porque  no coração que ama não há violência, no coração que ama não há maldade.

Que por amor sejam felizes, mas que por amor não se deixem ficar.

Gostava de dizer que mudou muita coisa na rotina das mulheres portuguesas, que me permita festejar este dia com tranquilidade e confiança num futuro melhor. As mulheres ganharam o direito de trabalhar fora de casa, independência financeira, e tantas outras regalias, mas nem por sobras conseguimos ainda o direito à igualdade de género, ainda há muito a fazer e muito a educar. Hoje vamos ouvir como somos extraordinárias, vão haver mensagens, emails e posts nas redes sociais a  gratificar a mulher que somos,vamos ter o jantar feito ou vamos jantar fora, vamos ter uma rosa ou um banho de espuma. Hoje.

Que este dia nos mostre que a única voz que precisamos de ouvir é a nossa. Porque somos extraordinárias. Que neste dia e em todos os outros se levante a voz de todas as mulheres fantásticas  que ainda não se ouviram  para que tenham a coragem de denunciar comportamentos doentios, para sair de uma rotina tóxica, para abandonar o que não as faz feliz, porque não merecem menos . Merecem mais.

Feliz Dia Da Mulher.

O que ninguém te diz sobre a maternidade

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A maternidade não são só rosas e risos.

Há dias em que não apetece levantar. Há dias em que tudo o que queres é que ninguém te acorde às sete da manhã para ligar a televisão, preparar o pequeno almoço ou fazer xixi. Também há noites que não dormes , por uma febre, uma dor de barriga ou uma virose qualquer. Há dias e noites assim.

Não vou mentir e dizer que é sempre fácil, que  não há dias em que penso como seria a minha vida sem filhos. Que não fico pasmada a olhar pela janela sem vontade de despir o pijama.Também tenho dias desses, dos difíceis, dos que apetece hibernar em casa, esconder a vida debaixo de um cobertor e dar uma caneca de café à mente. Tem dias em que é necessário que se faça um esforço, claro que sim .

Ninguém te prepara para o que sentes nos dias maus , nos dias em que colocas em causa a tua vocação como mãe, porque ninguém te disse que iam haver dias assim . Passaste nove meses a preparar-te para os risos e rosas da maternidade, não te avisaram dos espinhos e das lágrimas .Diziam-te que ser mãe é o melhor do mundo , que é uma alegria tão grande ter um bebé e não te avisaram que ias passar noites sem dormir, que dar de mamar dói, que vais sentir-te fraca e cansada muitas vezes.

Olhas para ti , sem ter tido tempo para tomar banho ainda, e não te lembras da última vez  que comeste, passaste o dia a trocar fraldas e a dar de mamar . Estás cansada e deixas cair uma lágrima. E é nesse momento que devias saber que é normal e justo que te sintas assim.

Não és má mãe, não és má pessoa.

É uma realidade que não vês nas redes sociais , não é o cenário perfeito para uma selfie , não consegues dançar nem vestir as calças na semana a seguir ao parto, talvez consigas no mês seguinte , ou no ano seguinte. Um dia vais conseguir.

Mas é importante que saibas que é normal que te sintas triste em alguma altura do teu dia, que te sintas inútil em alguma altura da tua nova vida, que queiras estar sozinha mais vezes , que sintas falta do silêncio e de comer chocolate (não precisas de o fazer às escondidas). Também deves saber que podes escolher, dar de mamar ou não, é uma escolha tua e não afetará a tua capacidade de ser mãe. Ficar em casa ou ir trabalhar mais cedo, é uma escolha tua e não é por isso que amas menos o teu filho. Já agora dou-te um conselho: sai mais vezes, vai ao centro comercial, passa tempo sozinha. Podes fazê-lo, tens esse direito, encontrar um equilíbrio entre o eu e o nós não tem de ser difícil. Não te compares com o que vês, aceita o que és e adapta-te. Sem pressa, tira tempo para aprenderes a ser mãe, chora quando tiveres de chorar para que possas rir em todos os outros momentos. Aprende a relativizar e aceita que nem tudo corre bem.  É mesmo assim. És mãe mas não deixas de ser mulher. Acima de tudo, és humana.

 

Sofia Franco

(sem filtros)

 

Uma vida é pouco para amar

sofia family | is-18Queria tê-las sempre assim, debaixo da minha asa e onde a vista alcança. Queria que o meu colo nunca ficasse pequeno demais para elas. Que a mais velha não tivesse já ares de pré adolescente, que a do meio não fosse já para o primeiro ano e a mais nova, (que vai fazer tudo primeiro com pressa de apanhar as irmãs) ,não  corresse tanto e se demorasse no meu peito. Queria estar sempre com elas, não perder nada do que as faz sorrir, nem chorar. Estar lá sempre que fizesse falta,e estar lá também quando elas acharem que não faço falta nenhuma.

Queria segurar o mundo nas minhas mãos, examiná-lo bem com lentes de aumentar, tirar-lhe os perigos e devolvê-lo já seguro.

Queria tanto não perder nenhum sorriso, nenhuma história ao deitar, aquela música que as faz pular e o miúdo que as faz suspirar.

Principalmente queria que o tempo não passasse tão depressa, que os dias tivessem mais horas e as horas mais minutos.  Que um segundo não fosse um instante e que num instante não fossem já mulheres .  Mas o tempo não liga ao que peço, vai passando e apagando a memória do choro agudo, da cara suja de papa, da primeira palavra e o primeiro passo, do dia em que se sentaram  e daquele em que falaram. O tempo vai levar as memórias de um rosto pequenino, que ao vê-las mulheres nunca mais me vou lembrar. E num instante quando acordar tenho rugas na cara, casa vazia e saudade no olhar. E num instante , nesse mesmo instante , vou desejar ter trabalhado menos e passeado mais, ter gritado menos e conversado mais, ter chorado menos e gargalhado mais. Vou desejar ter dado mais beijos, abraços, colo e mimos. Mais ainda mais. Muito mais.

Se ao menos o tempo pudesse avisar que uma vida é pouco para amar.

 

Sofia Franco

(sem filtros)

 

 

 

 

 

 

Desta vez faço tudo errado

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Tenho três filhas, a mais recente tem dois meses.

Esforcei-me sempre tanto para fazer tudo certinho como manda o figurino com as mais velhas que o desgaste emocional e físico acabou comigo.

Desta vez faço tudo errado. Desta vez  adormeço-a sempre ao colinho e faço orelhas de burro a quem me venha dizer que estou a habituá-la mal. Se for preciso uma gotinha de Aero-om para acalmar anda sempre comigo no bolso para as ocasiões, e não ligo mesmo nenhuma a quem me venha dizer que  vicio a miúda no doce.

Doce doce é sentir o cheirinho dela bem perto do meu nariz e  esse é o meu verdadeiro vício. Quero aproveitar esta minha maternidade sem culpas ou receios.

Desta vez ela  dorme a noite toda no meu abraço. Acordo de manhã com o braço dormente  mas com o coração cheio e o sorriso dela ao despertar vale por mil dormências. Eu cá não sou dada a termos e não sei se é co-sleeping e não defendo que deva ser assim ou assado . Faço porque preciso de dormir e ela sente-se bem ali, e se as mais velhas sempre correram para a minha cama a meio da noite, esta de certeza não vai ter de correr porque a cama já é dela, sempre. Ela vai crescer  num instante. Num instante está a andar, num instante já corre, num instante já mete rebuçados ao bolso e num instante já se veste sozinha. Num  instante deixa de ser bebé.

Desta vez até dou de mamar e dou em qualquer lado, no restaurante fino ou no banco do jardim. Que me olhe de lado quem tem de olhar, eu olho de frente quem me afrontar. Mas também já dei biberão porque há alturas em que dormir quatro horas é importante,e  a minha saúde e sanidade ainda têm de estar em primeiro lugar. Para sermos cuidadores é preciso cuidar do nosso corpo e da nossa mente, por isso se tiver de sair entrego-a ao cuidado do pai e calço o salto alto só por umas horas.

A verdade é que esta minha terceira, embora não seja “peanuts” também não é um bicho de sete cabeças e os dois meses que já passaram até foram tranquilos, apesar de estar com as mais velhas em casa e ter de me desdobrar por vezes em três tem sido uma maternidade mais calma, tirando o stresse a intensidade do costume.

Sempre mas sempre o mais importante, seja o primeiro ou o quinto é nunca mas nunca duvidar das nossas capacidades. E se para conseguirmos tivermos de fazer tudo errado, pois então um grande viva a todas as mães que fazem tudo errado porque certamente é muito mais difícil que fazer tudo “by the book” que “by the way” eu nunca li …

 

Sofia Franco

(sem filtros)

 

 

Vamos falar de maminhas?

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Vou falar de maminhas.

Tenho 14 primos, todos mais novos do que eu e sempre me lembro de ver as minhas tias de maminhas de fora a dar de mamar aos meus primos. Sempre achei bonito e natural,aquele era um cenário frequente na minha família. Mal sabia eu, na altura, que este podia ser assunto de tanta controvérsia! Dar ou não dar de mamar? Dar de mamar em público ou apenas em privado? Podia dissertar sobre estes assuntos, mas hoje vou falar-vos apenas  da minha experiência.

Como já disse tive contato com a amamentação desde que me lembro. Muito mais tarde, já na faculdade, aprendi a parte científica do assunto – sabia exaustivamente os benefícios:

Para o bebé – é o alimento mais completo que pode haver e está adaptado a cada um. O corpo da mãe produz o leite de acordo com as necessidades do bebé, tanto em termos de quantidade como em termos de constituição, é por isso um alimento muito bem tolerado e de fácil digestão em comparação com o leite adaptado (o que vem na lata). Protege a criança contra infeções, nomeadamente otites e infeções respiratórias, mesmo após se suspender a amamentação. Há também estudos que sugerem que previne o risco de obesidade, de doenças cardiovasculares e de doenças autoimunes em idades mais avançadas.

Para a mãe – previne hemorragias logo após o parto pela contração uterina que ocorre em resultado de uma hormona – oxitocina – que é produzida quando a mulher amamenta, ajuda a perder peso após o nascimento do bebé e previne o cancro da mama, útero e ovário.

Para a família – que poupa dinheiro em leites de lata e em idas ao médico.

Sabia as recomendações – os bebés devem ser alimentados de leite materno em exclusivo até aos 6 meses e em conjunto com outros alimentos até pelos menos aos 12 meses de idade, e as contraindicações, porque há efetivamente situações em que a amamentação é desaconselhada (quando a mãe é portadora de HIV por exemplo).

Portanto quando engravidei, ainda antes de começar a especialidade em pediatria mas já médica formada, tinha uma certeza: vou dar de mamar.

Assim passei 9 meses sem pensar muito nesse assunto. Li vários livros sobre puericultura, preparei todo o enxoval e esperei que a minha princesa nascesse.

Chegou Fevereiro e com ele a Margarida. Nasceu de cesariana e eu ainda estava no recobro quando ma trouxeram. Puseram-na à mama e ela pegou sem dificuldade e começou a mamar. “Olhe para isso” – diziam as enfermeiras “Cheia de colostro!”. “Quem?? Eu?? Cheia de colostro? Então mas isto é alguma coisa… só saem umas gotinhas. Ai que eu não tenho leite…” – Pensava eu. Decidi confiar nas enfermeiras e a verdade é que nos primeiros dias e noites, não fosse eu pôr o despertador de 3/3h para a minha bebé mamar, ela não se queixava de fome e adormecia reconfortada depois de ir à mama.

Ao 3º dia tive alta. Antes de sair do hospital a enfermeira veio ver-me “Ainda não teve a subida do leite” disse ela. “Não tive a subida do leite, já tenho as mamas o dobro do tamanho… não viu bem com certeza” – Pensava eu. Mas pensava mal. Cheguei a casa e ao peito tinha o que pareciam 2 pedras de tão cheias que estavam as mamas, o leite pingava dos mamilos mal a minha bebé dava sinal e eu não aguentava a sensação de que as maminhas iam rebentar a qualquer instante. Fiz o que tinha lido nos tais livros de puericultura: fui para o banho massajar  e aliviar a tensão das duas mamas-pedregulho. Pelo menos nessa altura tive a certeza de que tinha leite de sobra. Foi sol de pouca dura. Ao fim de uma semana e com as hormonas ainda totalmente desorientadas (sim, porque depois de sermos mãe andamos algum tempo a bater mal e com as emoções em descontrolo total), a Margarida em vez de aguentar 3h passou a querer mamar de hora a hora! Como assim, de hora a hora? A minha criança que mamava de 3/3h porque eu punha despertador, que até me dava uma 1h extra de intervalo durante a noite, que adormecia que nem uma pedra mal ficava saciada, agora queria mamar de UMA em UMA hora?? Eu chorava (repito – as hormonas não ajudavam!) “Eu não tenho leite… o meu leite não é bom.. ela fica com fome…. Eu não vou conseguir dar de mamar até aos 6 meses… mas eu não lhe quero dar biberon”. Eu chorava e desesperava. O Luís ouvia e desesperava.

Eu sabia a teoria quase toda: que NÃO há leites maus nem fracos, que se os bebés fazem xixi e cocó com regularidade é porque estão bem alimentados, que o corpo da mãe se prepara para responder às necessidades do bebé. Eu sabia a teoria quase toda mas ali estava eu, na prática, com uma bebé recém nascida a chorar com fome. Desesperada voltei aos meus livros de puericultura (que há coisas que não vêm nos manuais de Medicina) e encontrei a resposta no “Socorro… sou mãe” da Rita Ferro Alvim. A minha criatura estava com um pico de crescimento!!!

Assim, com a alma apaziguada, continuei a dar de mamar, fosse de hora a hora ou a outro intervalo que a Margarida quisesse, e sem grandes dificuldades ela mamou em exclusivo até aos 5 meses (como a maioria das mães tive que antecipar a introdução de outros alimentos para poder retomar ao trabalho). A maminha acabou aos 10 meses, quando tive uma mastite e quando o leite que tinha já era pouco.

Passados 2 anos e meio nasceu o Duarte. Eu, já com muito mais conhecimento (tanto teórico – já era interna de pediatria – como prático – afinal já tinha tido uma 1ª experiência com a Margarida) achei que não havia hipótese de falha! Só que o meu filho trocou-me as voltas. O meu bebé chorava SEMPRE de hora a hora, o meu bebé só estava bem ao meu colo e à mama, a fazer de chucha. Aguentei 1 mês em aleitamento materno exclusivo, cheia de dúvidas. Ao fim de 1 mês, exausta (continuava a chorar de hora a hora) decidi dar-lhe um biberon. Ao fim de 1 hora ele estava a chorar outra vez. Dei-lhe outro biberon. Ao fim de 1 hora a chorar de novo. Conclusão: não era fome, o meu bebé era só refilão. A experiência do biberon ditou o fim da maminha: o Duarte provou e gostou e começou a não querer ir ao peito. Os bebés na maminha têm que se esforçar muito mais que no biberon e ele queria encher a barriga em pouco tempo e sem grande esforço. A pouco e pouco ele foi deixando de pegar na mama. Comecei a tirar do meu leite com a bomba e dava-lhe pelo biberon. Com grande esforço ainda consegui manter o meu leite alguns meses, mas apesar de eu tirar o leite com a bomba fui produzindo cada vez menos. Sem dramas, sem culpas, e muito naturalmente aos 6 meses veio o leite de lata de vez.

Dar de mamar pode ser maravilhoso! Sentimos o nosso bebé juntinho a nós, o olhar a fixar o nosso, a sensação de que o resto do mundo não existe e só importamos nós os dois. É do que tenho mais saudades de quando os meus filhos eram pequeninos.

Mas dar de mamar pode ser difícil e doloroso. Eu passei por isso.

Dói quando após o parto o útero se contrai com a oxitocina que é libertada quando damos de mamar, doem as mamas no início da mamada quando os ductos se enchem de leite, dói quando o bebé faz da mama chucha e faz gretas que chegam a sangrar, dói quando a mama infeta e surge uma mastite.

E dói “na alma” quando duvidamos do nosso leite, quando não sabemos se o bebé chora porque tem fome ou se é por outro motivo qualquer, quando a mãe e a sogra e a tia dizem que temos pouco leite ou que o leite é fraco e nós nos sentimos a falhar como mãe.

 

SF

(médica de crianças)

Porque é que temos de continuar a falar em Mulheres Reais

Li no outro dia um artigo num blog que sigo que referia que o tema ” Mulheres Reais” era  o não assunto do momento. Concordei com alguns pontos que a bloguer refere mas discordo em absoluto  da não necessidade de falar em Mulheres Reais.

Ninguém consegue definir o conceito de Mulher Real, porque é tão subjetivo como a personalidade de cada uma de nós, é tão subjetivo como  o estilo de vida, as preocupações, as ações de cada uma, mas enquanto existirem temas como adolescentes anoréticas por pressão social, ou adolescentes mais gordinhas com vergonha de ir à praia, ou meninas  de oito anos a acharem que o futebol é só para os meninos e meninos da mesma idade a acharem que o cor de rosa é cor de menina devemos falar em mulheres reais. Enquanto continuarmos a criticar as mulheres que saem da maternidade  maquilhadas e elegantes que na semana seguinte já estão no ginásio a fazer abdominais e enquanto   se continuar a criticar a foto que a outra publicou nas redes sociais em que mostra a barriguinha pós parto ou um bocadinho da mama direita enquanto amamenta, temos de continuar a falar de mulheres reais.

Porque falar de mulheres reais pressupõe que aceitamos e respeitamos as diferenças, que respeitamos o facto de existirem mulheres que querem amamentar, e que têm todo o direito de o fazer no banco do jardim , e se por acaso não conseguir tapar por completo a maminha esquerda ninguém vai reparar ou fazer ar de nojo ao passar. Porque o bébé é real, a necessidade é real e a mulher é real, tem mamas , tem defeitos, tem virtudes. Porque falar de mulheres reais também é não julgar a mulher que decide que não quer amamentar, ou a que como eu faz um bocadinho de batota e a meio da noite espeta com o biberão à pequena porque precisa de dormir quatro horas seguidas.

Porque ser uma mulher real também parte de nós, também parte de aceitarmos que há dez anos atrás tínhamos menos dez quilos, mas não tem mal nenhum estarmos a juntar dinheiro para fazermos uma operação às maminhas. Se é o caminho mais fácil, claro que sim! Mas que mal tem sermos um pouco preguiçosas? Que mal tem se podemos, se é o que queremos, seguir o caminho mais fácil? Ser mulher real também é ser feliz, também é fazer o que nos faz sentir bem, sem culpas.

Falar em mulheres reais é mais que postar uma fotografia no instagram com a legenda “sem filtros”, é mais que colocar uma foto despenteada e com olheiras , é mais que publicarmos  um comentário sobre o imperfeita que somos enquanto mães ou como a nossa relação conjugal é amorosa. Porque nunca somos só uma coisa, porque todas sabemos que aquilo que vai parar ás redes sociais muitas vezes não espelha o que somos, apenas cria a ilusão da perfeição que não somos, da vida que não temos.

Eu também fui maquilhada para a maternidade no dia do parto, também levei o estojinho dentro da mala para tirar uma selfie super penteada e maquilhada e agora não paro de rir porque a única selfie que consegui, eu estou de óculos, cabelo mal amanhado e a maquilhagem que levei toda esborratada. Mas é real? Sim! E tão real como a mulher que teve paciência para se maquilhar depois do parto, que conseguiu sair da maternidade de saltos altos e que conseguiu organizar-se no meio de rotinas e hormonas alteradas para fazer algo por si e ir ao ginásio! Tão real como a mulher que simplesmente não quer ter filhos ou como a que decide ficar em casa a tomar conta dos seus , e a quem chamamos de preguiçosa porque não gosta de trabalhar sem fazermos noção da dificuldade que é, ou de lhe chamarmos sortuda porque não precisa de trabalhar….

Sim, é preciso continuarmos a falar de mulheres reais, porque é urgente não julgar!É  urgente aceitarmos que somos diferentes, que fazemos escolhas, que não vamos ser magras a vida toda, que podemos estar bem com o nosso corpo e ao mesmo tempo desejar perder aqueles quilinhos a mais, que os meninos podem vestir rosa e as meninas podem jogar futebol, que a miúda gordinha não precisa de se esconder na praia e que a magricela não precisa de ser chamada de “tábua rasa”, que o que de melhor há no mundo é sermos todos diferentes!

Sofia Franco

“sem filtros”

mulheres reais 3

 

 

Irmãos para sempre…. ou “seca “para a vida toda…

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Eu tenho duas. Mais velhas. A diferença de idades é tão grande que qualquer uma poderia ser minha mãe. Foi como foi. Foi assim. Nem sempre a relação é fácil mas se pudesse escolher não escolhia de outra forma. Depois tenho dois, emprestados , filhos da mais velha, com uma diferença de idade tão pequena que em qualquer lado passam por meus irmãos. Depois tenho outra, a da escola que ficou para a vida toda..

Quando engravidei a primeira vez pensei logo na segunda, assim com uma diferença curtinha para que pudessem brincar , ser cúmplices e caminharem juntas pela vida fora. Dois anos depois nasce a mais nova, quase quase a do meio. A maioria  dos dias dão-se bem , mas o dia é longo e nunca acaba sem terem uma discussão, sem um “ó Maeeeeeeee” , sem um grito, um choro ou qualquer coisa. São as primeiras a fazer queixinhas uma da outra, não se acanham nada na prontidão com que se acusam.

Se a mais velha vai dormir a casa de uma amiga a mais nova fica  inquieta. Dá-me um abraço e diz que tem saudades da mana. Mas se dormem juntas há pontapés e juro que até em sonhos já as ouvi queixarem-se uma da outra.

Quando lhes disse que iam ter mais uma mana, aceitaram tranquilamente com a naturalidade de quem sabe que ter manos é uma seca , mas uma seca das boas. Uma seca para a vida toda. A mana mais nova ainda não nasceu, mas já entra nos  desenhos da escola. Já fazem planos com ela, só ainda não arranjaram espaço para ela na caminha dos pais, mas tudo a seu tempo. A “seca ” para a vida toda ainda agora começou.

Sofia Franco

(sem filtros)

 

 

Queridas mães perfeitas…

IMAGEM MAES PERFEITAS

Queridas mães perfeitas,

sei que existem porque sigo os blogs e os grupos do Facebook. Nunca vi nenhuma mas de certeza que estão por aí.

Queridas mães perfeitas, folgo em saber que existem, que estão bem de saúde e que são cada vez mais, não sei se já alguém inventou o movimento Mães Perfeitas mas de certeza que vos assenta que nem uma luva!

Folgo em saber que os vossos filhos andam sempre imaculados, sem uma ruga na roupa ou um arranhão no corpo.

Folgo em saber que nunca ouviram um berro, um grito ou um ligeiro esganiçar de voz.

Folgo em saber que todos os legumes da sopa são biológicos, assim como a fruta, que nunca comeram boiões no supermercado e que os iogurtes são da bimby e sem açucar, que nunca comeram uma bolacha maria  nem de chocolate nem gomas nem bolos nem nada dessas porcarias que os miúdos hoje em dia comem! As festas de aniversário que tenham salame foram banidas . Fizeram muito bem que a salame só faz mal e deixa a boca suja de chocolate e as mãos num estado caótico, já para não falar da prata em volta , cheia de quimicos. Que horror!

Louvo as mães que nunca cederam ao Mac Donalds, que não deixam os filhos ver mais de 30 minutos de Tv por dia,  que nunca por preguiça ou cansaço os puseram a ver desenhos para vocês verem um filme ou o This Is Us do dia anterior.

Um brinde a todas as mães que são contra furar as orelhas às meninas, pelo que parece é uma grande piroseira e todas nós (geração dos anos 80) nos lembramos como foi traumatizante termos brincos nas orelhas!

Um brinde também às mães que nunca falharam uma vacina.

Não sei como conseguem ter a casa sempre arrumada mas pelos vistos eu ainda tenho muito para aprender como mãe, às vezes desespero tanto que sou capaz de berrar no supermercado, já tentei a técnica do abraço mas só serviu para elas levarem a melhor, assim continuei com a técnica do berro  ou do esganiço da voz, às vezes também serve a ameaça” Olha que vamos ter uma conversa muito séria na casa de banho” resulta sempre, é tiro e queda!!

Também já não sei o que hei-de fazer com tanta roupa para lavar , encardida dos fins de semana que passam no campo, as meias ainda consigo poupar porque andam tantas vezes descalças que só sujam os pés. Estou desejosa que chegue o verão porque assim posso deixar que andem só de cuecas e poupo na roupa também. E as unhas? Meu Deus as unhas, chegam da escola em tal estado que às vezes nem consigo ir logo de seguida comer o tal gelado ao jardim  ou ao parque onde costumam brincar depois das aulas.

Os trabalhos de casa? Ah pois! Às vezes fazem antes de jantar outras ao pequeno almoço antes de irem para a escola, aí acho que tenho sorte porque como sou um pouco preguiçosa escolhi uma escola com poucos TPC, mas tem muita brincadeira e até tem algumas regras.

O que vos queria dizer , queridas mães perfeitas é que ainda bem que o mundo vos tem, os vossos filhos vão aprender a andar sempre limpinhos  na rua, já as minhas se for preciso até vão andar de bicicleta de pijama , também vão ter uma alimentação super saudável, infelizmente as minhas comem muitas vezes “porcarias”, eu bem sei que não lhes faz bem nenhum mas elas ficam com um sorriso tão grande e tão satisfeitas que não consigo impedir. Os vossos filhos têm mães perfeitas e daqui a uns aninhos também serão adultos perfeitos, acho que vou ter de me mudar com as minhas para a selva mais próxima, onde possam continuar a andar descalças, a correr pelo campo, a ir à praia no inverno, a comer gelados com as mãos sujas, a andar na rua com roupa por engomar porque não houve tempo para mais, despenteadas e com a boca suja do chocolate das bolachas. Depois volto quando tiverem dezoioto anos para perceberem o que é a civilização e aprenderem alguma coisinha com os vossos filhos educados sem vincos.

Realmente as coisas mudaram muito, é que na altura em que fui criança a minha mãe não tinha facebook, nem grupos de mães  para saber que vocês existem, mães perfeitas, então fez só o melhor que podia, de chinelo na mão muitas vezes e gritos esganiçados como os meus . Mas curiosamente deve ter falhado em alguma coisa porque eu até entrei para a faculdade e aprendi a ler e a escrever quando era pequena, apesar de brincar na rua depois das aulas e atirar fisgas às galinhas no quintal.  Enfim há mães que têm sorte, outras são perfeitas.

De uma mãe imperfeita

Sofia Franco