Dia Internacional do Surdo

Mano, sabes que domingo é dia do surdo?

Boa! Vão fazer-me uma festa?!!?!?

Parvo…

received_2151157938264325

É muito assim, sempre foi assim a forma como encararmos o facto de ter um surdo lá em casa.

Soube que o meu irmão era surdo tinha eu uns 9 ou 10 anos. Foi o meu pai que me contou enquanto lavava as mãos na casa de banho. Assim, simples e directo “sabes que descobrimos que o teu irmão é surdo?” Acho que respondi: Pois!

Na verdade na altura nem percebi o que isso implicaria. Com o tempo e o desenrolar das coisas fui-me apercebendo e habituando. Ainda tive apoio psicológico, umas duas sessões com uma psicóloga que nem sequer era muito simpática, mas depois deixei-me disso. Acho que me fez muito melhor usar esse tempo para brincar na rua ás escondidas e à apanhada.

Senti pouco as diferenças, tirando as luzes que acendem lá em casa cada vez que alguém toca à porta ou o facto de não valer a pena telefonar para o meu irmão, acho que a minha realidade é igual à realidade de qualquer irmã mais velha… passar para segundo plano em algumas situações, ter que dividir tudo, ter que ver alguém estragar os meus brinquedos, sentir a responsabilidade de ter que dar o exemplo e pouco mais.

Para ele sim, é mais duro. Não vale a pena pensarmos numa sociedade perfeita. Ser diferente será sempre uma luta. Ser surdo é por isso uma luta diária. Não consigo imaginar o que vai na cabeça dele quando sai à rua, não sei se existe caos ou apenas silêncio, mas calculo que ele gostasse de nos ouvir, de conseguir falar com qualquer pessoa na rua, de ir às finanças, à segurança social ou a qualquer outra instituição publica sem depender de terceiros. Calculo que ele tal como eu quisesse ser independente, mas tenho duvidas que isso seja possível. Não gosto de coitadinhos e o meu irmão não é um coitadinho, nunca foi e nunca será. É bonito, lindo mesmo, tipo jogador da bola, manequim e modelo fotográfico (mas tudo ao mesmo tempo), inteligente, lutador e um excelente atleta. É chato, na mesma proporção da beleza e muito desconfiado, quer saber sempre o que estamos a dizer, o que a mesa ao lado está a dizer, o que os senhores lá ao fundo estão a conversar e não acredita quando lhe digo que não sei, que não consigo perceber as conversas colaterais. Esta posso afirmar que é uma característica dos surdos, são desconfiados.

Depois há uma coisa que é muito gira, quase ninguém sabe Língua Gestual, portanto, nós gozamos o prato e podemos contar segredos um ao outro numa sala cheia de gente. Também discutimos, as mãos gesticulam mais depressa, e a expressão facial muda. Invento quase todos os dias um novo gesto para me conseguir exprimir e dizer palavras que não sei, ele goza, ri até 2023, depois volta e corrige-me. Já não moro com ele, mas garanto que “falamos” todos os dias (obrigada tecnologia).

Somos o gato e o rato, mas não vivemos um sem o outro. E como todos os cúmplices nem sempre precisamos de verbalizar…basta um olhar.

IMG_20180927_084132 (1)

 

Sim, eu digo surdo, não digo deficiente auditivo. Também digo burro, não digo que tem perda de inteligência. Digo cego em vez de invisual , digo velho não digo idoso e digo preto não digo de cor. Sou assim… SEM FILTROS.

Se tiverem interesse em ler coisas mais sérias sobre o assunto. Ficam alguns links:

http://parstoday.com/pt/radio/world-i23135-dia_internacional_do_surdo

http://www.apsurdos.org.pt/

https://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-11-16-Para-la-de-um-mundo-surdo#gs.Gr3cQ1o

MB

Sem  filtros