Dia Internacional do Surdo

Mano, sabes que domingo é dia do surdo?

Boa! Vão fazer-me uma festa?!!?!?

Parvo…

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É muito assim, sempre foi assim a forma como encararmos o facto de ter um surdo lá em casa.

Soube que o meu irmão era surdo tinha eu uns 9 ou 10 anos. Foi o meu pai que me contou enquanto lavava as mãos na casa de banho. Assim, simples e directo “sabes que descobrimos que o teu irmão é surdo?” Acho que respondi: Pois!

Na verdade na altura nem percebi o que isso implicaria. Com o tempo e o desenrolar das coisas fui-me apercebendo e habituando. Ainda tive apoio psicológico, umas duas sessões com uma psicóloga que nem sequer era muito simpática, mas depois deixei-me disso. Acho que me fez muito melhor usar esse tempo para brincar na rua ás escondidas e à apanhada.

Senti pouco as diferenças, tirando as luzes que acendem lá em casa cada vez que alguém toca à porta ou o facto de não valer a pena telefonar para o meu irmão, acho que a minha realidade é igual à realidade de qualquer irmã mais velha… passar para segundo plano em algumas situações, ter que dividir tudo, ter que ver alguém estragar os meus brinquedos, sentir a responsabilidade de ter que dar o exemplo e pouco mais.

Para ele sim, é mais duro. Não vale a pena pensarmos numa sociedade perfeita. Ser diferente será sempre uma luta. Ser surdo é por isso uma luta diária. Não consigo imaginar o que vai na cabeça dele quando sai à rua, não sei se existe caos ou apenas silêncio, mas calculo que ele gostasse de nos ouvir, de conseguir falar com qualquer pessoa na rua, de ir às finanças, à segurança social ou a qualquer outra instituição publica sem depender de terceiros. Calculo que ele tal como eu quisesse ser independente, mas tenho duvidas que isso seja possível. Não gosto de coitadinhos e o meu irmão não é um coitadinho, nunca foi e nunca será. É bonito, lindo mesmo, tipo jogador da bola, manequim e modelo fotográfico (mas tudo ao mesmo tempo), inteligente, lutador e um excelente atleta. É chato, na mesma proporção da beleza e muito desconfiado, quer saber sempre o que estamos a dizer, o que a mesa ao lado está a dizer, o que os senhores lá ao fundo estão a conversar e não acredita quando lhe digo que não sei, que não consigo perceber as conversas colaterais. Esta posso afirmar que é uma característica dos surdos, são desconfiados.

Depois há uma coisa que é muito gira, quase ninguém sabe Língua Gestual, portanto, nós gozamos o prato e podemos contar segredos um ao outro numa sala cheia de gente. Também discutimos, as mãos gesticulam mais depressa, e a expressão facial muda. Invento quase todos os dias um novo gesto para me conseguir exprimir e dizer palavras que não sei, ele goza, ri até 2023, depois volta e corrige-me. Já não moro com ele, mas garanto que “falamos” todos os dias (obrigada tecnologia).

Somos o gato e o rato, mas não vivemos um sem o outro. E como todos os cúmplices nem sempre precisamos de verbalizar…basta um olhar.

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Sim, eu digo surdo, não digo deficiente auditivo. Também digo burro, não digo que tem perda de inteligência. Digo cego em vez de invisual , digo velho não digo idoso e digo preto não digo de cor. Sou assim… SEM FILTROS.

Se tiverem interesse em ler coisas mais sérias sobre o assunto. Ficam alguns links:

http://parstoday.com/pt/radio/world-i23135-dia_internacional_do_surdo

http://www.apsurdos.org.pt/

https://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-11-16-Para-la-de-um-mundo-surdo#gs.Gr3cQ1o

MB

Sem  filtros

 

 

 

 

 

Entrevistas de Emprego – O DILEMA

Este artigo faz parte do grupo dos que andam a marinar há meses. O que vestir numa entrevista de emprego?

Já perdi a conta à quantidade de entrevistas de emprego a que fui, e à quantidade de pessoas que também já entrevistei. Neste segundo capitulo tive de tudo, calções de praia,  chinelos, mini-saias, lantejoulas, maquilhagem de festa, enfim, todo um mundo fora do contexto. Mas também tive candidatos que me meteram no chinelo e me fizeram ter vontade de voltar a casa e mudar de roupa.  E eu sempre que tinha uma entrevista perdia horas de sono a pensar o que vestir, inspirando-me e algumas vezes em antigas chefias ou colegas, mesmo quando isso nada tinha a ver comigo e não reflectia o que realmente eu era (grande erro, percebo agora).

Independentemente do desabafo que vou fazer, quero que saibam que nunca fui a uma entrevista de calças de ganga e/ou tshirt. Mas se calhar numa próxima até vou. Não percebo o fato preto e a camisa branca, muito menos quando não só não tem a ver com a empresa como na maioria das vezes nada tem a ver com a pessoa. Na minha humilde opinião a pessoa deve estar apresentável, cabelo lavado, unhas arranjadas, roupa sem nódoas e sem buracos e acima de tudo deve ir confiante. Se um belo par de sabrinas lhe dá confiança porquê ir de sapatos de salto alto emprestados e parecer uma girafa bebé a andar?

(Lembro-me de ter trabalhado numa cadeia de ginásios em Portugal em que a equipa comercial parecia ter saído de um filme porno com saias pretas por cima do joelho, batom vermelho e 10cm de salto. Estive lá um mês, eu e as minhas sabrinas pretas).

Em Dezembro abracei um novo desafio profissional e depois de ter sido entrevistada por uma miúda que quase parecia minha filha, mas que se vestia como a minha mãe, passei a uma segunda fase onde uma senhora com um vestido de cetim preto e sombra cor de rosa nos olhos me disse que eu tinha “perfil”, olhei para ela e pensei se aquilo boas ou más noticias. Um mês de formação e no meio de tanta coisa técnica o chefe dá algumas dicas, entre as quais,  “não se esqueça de uma regra básica, não se visitam médicos de calças de ganga”. Bonito…vou passar o resto da minha vida a fingir que sou uma menina certinha.

Nota de rodapé: Primeiro dia de visitas e falo com um médico de calças rasgadas e chuteiras de futsal!

Nunca vou perceber estas regras parvas, muito menos quando elas não estão sequer enquadradas com a cultura da empresa nem com o nível de ordenado. Da mesma forma que as hospedeiras de bordo e as meninas da caixa dos hipermercados têm farda, se calhar também as recepcionistas dos escritórios, os empregados das instituições bancárias e das seguradoras, os operadores de call center e todos os outros que são obrigados a vestir o que o patrão quer deveriam ter.

Resumindo e baralhando, o que vestir numa entrevista de emprego?!?!

Aquilo que sabe que vai vestir todos os dias quando for trabalhar, correr para o autocarro, descer as escadas do metro e subir para o comboio:

Roupa limpa, engomada, sem borbotos, sem nódoas e se não tiverem jeito para combinar cores, optem por tons neutros. Nada de tshirts com frases provocatórias e os acessórios não acho de todo que tenham que ser simples, mas também não precisam de ir mascaradas de Carmen Miranda. Estudem a empresa e a função, tentem enquadrar-se. Não tentem agradar só naquele dia. Mostrem confiança e personalidade. Depois se conseguirem o emprego paguem-me um café. Se não conseguirem é porque algo que vos faça mais feliz está para chegar.

Eu sei que não sou dona da razão e que sou muito contestatária, mas digam de vossa justiça,  se estas meninas vos aparecessem à frente não marcavam logo 15 pontos na primeira impressão?

 

Agora vou só ali escolher umas calças pretas para amanhã que não sejam iguais
às de hoje…

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Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço;)

 

MB

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